A Viagem
28 Maio 2008 - 20:57:57
Chegara finalmente o tão apetecível dia!18 de Outubro! O dia mais desejado dos últimos meses.O destino? O destino era magnífico! A Lua!Estava tudo preparado. O último check-up à nave tinha sido feito e nós estávamos equipados com os fatos espaciais, quentes, super desconfortáveis e uns capacetes horríveis! Parecia que tínhamos um forno na cabeça.O Neka não falava de outra coisa senão da viagem. Estava tão entusiasmado! Eu, porém, estava cheia de nervos. Só pensava na descolagem e tinha o estômago às voltas.O grande momento tinha chegado! Encaminhámo-nos de mãos dadas para a nave. Não houve despedidas. Entrámos, sentámo-nos, colocámos os cintos de segurança e a partir dali estávamos entregues ao destino: ou a descolagem corria bem e chegávamos ao destino, ou aquilo corria tudo mal e explodíamos ali, sem sequer vermos as estrelas mais de perto…Ouviu-se o Director:- Preparados?-Ora, pois bem! Vamos a isso. – respondeu o Neka.O Director começou a contagem decrescente:- 3, 2, 1, descolar!Apertámos as mãos com tanta força... Parecia um último olhar, o último contacto, as últimas palavras. A partir daquele momento só nos iríamos ter um ao outro, a Lua como casa, as estrelas como vizinhas, um infinito espaço escuro como fundo... A única coisa que nos ligava à Terra era a voz do Director a dar-nos ordens.Lentamente começávamos a flutuar. A Terra lá ao longe, pequeníssima... Surreal pensar-se que ali haveria vida.Demorámos várias horas até chegar, por isso, para minha felicidade, tirámos finalmente aqueles fatos desconfortáveis e aqueles capacetes-forno. Depois de tanto entusiasmo rendemo-nos ao cansaço e acabámos por adormecer, abraçados, junto a uma das muitas janelas da nave. O nosso último pensamento foi o que seria de nós em todo aquele infinito.Dormimos tanto que as horas que faltavam para a chegada estavam resumidas a três.Mal acordámos o Neka foi estabelecer contacto com o Director. Estava tudo controlado - a nave tinha combustível, a rota estava certa. Estava tudo dentro do planeado. O Neka relatou-lhe a viagem até então e recebemos instruções para a aterragem que se aproximava cada vez mais.Eu continuava imóvel, a contemplar as estrelas e a pensar o quão estava perto delas.Ouvi a voz do Neka:- Nika, senta-te aqui! Vamos aterrar, ajuda-me!Senti novamente o estômago às voltas, mas cumpri a ordem. Não podia mostrar receio, o orgulho não o permitia. Olhei para o vidro da frente da nave e vi a Lua tão perto. Era branca acinzentada. O nervosismo aumentava mas a alegria de sermos os futuros habitantes dela era maior que qualquer coisa naquele momento.Tudo tremia, devia de ser da redução da velocidade. O Director dava instruções ao Neka. Coitado... o senhor estava mais nervoso do que nós.Fez-se silêncio. Os motores pararam, o Director calou-se, o Neka tremia. Tínhamos aterrado na Lua. De repente ouve-se uma explosão de alegria pelo intercomunicador. Eu e o Neka abraçamo-nos com tanta força que parecia que não nos víamos há anos.Saímos para a Lua, tocámos a nossa nova casa pela primeira vez. Era magnífica, a cor era brilhante, tinha covas, tinha buracos sem fundo, tinha uma leve camada de poeira, também ela branca. Era o paraíso.Tudo o que era um sonho tornou-se uma realidade. Estava com o Neka, e na Lua, como tanto planeáramos.Os meses foram passando, as estrelas iam morrendo, a comida estava a acabar... Mas o dia de regresso estava próximo.Acordámos, como em todos aqueles dias que passaram, mas aquele dia era especial. Era o dia do regresso!Estava tudo preparado. Voltámos a vestir os fatos e a por os capacetes. O Neka entrou em contacto com o Director para informar que estávamos prontos.O Director deu ordem de descolagem, mas aconteceu o que mais se temia. A nave tinha avariado!Informámos de imediato o Director que tentou explicar o que poderia ser. Mandou o Neka verificar o motor, mas o problema não era do motor... Mandou-o verificar tantas coisas... As horas passavam e o regresso, o tão desejado regresso, teve de ser adiado. De repente um fim parecia tão próximo.No dia seguinte o Neka tentou entrar em contacto com o Director, mas não conseguiu. Tudo naquela nave tinha avariado sem justificação.Estávamos condenados a morrer ali, naquele mundo só nosso. Longe de tudo, longe de todos.Saímos da nave, deitámo-nos na Lua, senti o braço do Neka no meu ombro e os lábios dele nos meus. Era o último abraço, o último beijo.

E ali ficámos abraçados para todo o sempre.


Phi
19-3-2008
Ribas · 372 vistos · Deixe um comentário

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